Certezas
Acordei com o velho gosto de guarda-chuva na boca. Fazia tempo que não o sentia. Meses de abstinência jogados fora. Agora é beber um café forte, escovar os dentes e tomar um banho para despertar, não obrigatoriamente nessa ordem. Mas aquela não era minha casa e tomei apenas o café já frio que sobrou dentro da panela já na pia com as outras louças para lavar. Já passava das nove da manhã e o próximo coletivo daquela hora chegaria na parada em cinco minutos. Apressei o passo e só consegui vê-lo dobrando a esquina. Seria uma longa hora de espera naquele banco. Resolvi seguir a pé, embora soubesse que naquele estado não conseguiria chegar ao destino apenas caminhando. Mas o percurso me ajudaria a espairecer. A noite não foi boa e o dia não anunciava ser diferente.
Segui a passo lento pela Bezerra de Menezes sentido Centro. Na altura do Restaurante Linny não tinha mais forças para prosseguir. Entrei e pedi uma sopa de peixe. Milagrosamente aquele manjar me renovou a energia. Se havia uma certeza na vida é que o Linny nunca fechará as portas. Paguei a lauta refeição com parte dos honorários percebidos na noite anterior. Saindo de lá e já na calçada avisto o meu coletivo se aproximando. Os ventos estavam mudando minha sorte. Ergui a carteira do INPS para entrar pela frente e não pagar a passagem. Um ex-cliente me emprestou a dele como pagamento por um serviço de espionagem em que descobri que a amante dele o traía. Entrei na condução e sentei-me logo atrás do motorista, na primeira fila. Seguimos viagem até o meu desembarque na praça do Sagrado Coração de Jesus.
Desci a Solon Pinheiro até o meu escritório, que também era o meu lar, vizinho à Praça dos Leões. O elevador do prédio estava com defeito. Subiu os quatro lances de escada até chegar a minha porta. Exausto, abri a geladeira para conferir se ainda havia água gelada. Verti dois copos seguidos. Tomei meu banho, escoveio os dentes e bebi o café que sobejou na garrafa térmica. A água do banho estava mais quente do que o café. Armei minha rede próximo a janela e encerrei o dia me balançando com o apoio do pé na esquadria de alumínio para não sujar a parede. Se eu acordasse ainda naquele dia teria jantado um peixe à delícia na Peixada do Meio com o restante da verba que recebi pela inglória missão da noite passada. Mas como não consegui levantar-me antes do meio-dia seguinte, fiquei com a suculenta empada do Edson da minha esquina.
